sábado, 27 de novembro de 2010

Presto.

Eram mais das sombras que ali estavam, vistas pela última vez desde seu último encontro com a morte. Todo o ápice de seu declínio. Seus olhos ardiam, seu corpo estremecia como se sua alma pudesse saltar para fora. O tormento de nem se quer compreender o que era tudo aquilo. Milhões de viagens a caminho de todas as suas outras dimensões jamais exploradas.

E então, ele se perguntava, após voltar a si com uma taça de vinho tinto transbordando, sentado sobre uma poltrona de costas para a janela que dava direto para o vale, questionou-se: “E se eu morresse amanhã?” Um dos velhos poemas (e único) que decorara na infância por livre e espontânea vontade. Pensara que as sombras fossem sinais de que a qualquer instante pudesse partir para uma dimensão divina, ou, talvez fosse mais uma das tantas falhas de suas faculdades mentais, o que nunca admitira.

Talvez seja cedo, ou tarde para partir. O mundo faz com que eu prossiga com todas as minhas dúvidas plenas de declínio e doces de sacrifício por não presumir. E se eu morresse amanhã? A aurora não presenciaria os momentos a brisa, com minha eterna amada... Na qual nem pudera conhecer ou tocar. Aquela presente em meus sonhos e resenhas eternamente intímas, pois essa fraqueza não deixei a mostrar.

Se eu morresse amanhã, alguns rostos mostrariam satisfação ao ouvir a marcha fúnebre de Chopin ás seis e meia da tarde, enquanto os corvos estariam velando meu corpo. Para que segundos depois pudessem se aproveitar de minha carne e beber o meu sangue até se debruçar sobre minha lápide, e gargalhar como Deus Zebu faria.

Mas juntamente com o triunfo de minha morte, a dor se esvaeceria. E todo o pecado seria então dilacerado no momento em que eu virasse cinza ao vento, a poeira maldita. Que seriam levadas aos meus deuses. E as trevas teriam parte do ser inerte. Dono da brigada de todo a possessão do inferno na terra.


No mais súbito silêncio harmônico, profanou de todas as conjeturas em sua mente... Que na realidade não estava lotada de tanta insanidade, porém de profundidade. Sombras vagavam por volta de sua taça, puxando então sua mão. O barulho do vidro que espalhou-se pelo chão. O inferno não convidava a ninguém, apenas aterrorizava. E lá se foi uma alma sem discernimento de lá viver entre suas próprias sombras amargas, representadas por seus heróis (vilões) de infância.

O vinho fizera uma enorme mancha no tapete escuro, o cadáver descasava com um semblante sóbrio sobre a poltrona... Marcando um intenso fim silencioso. Hades comemorava como um cristão comemora em sua casa, em dia de ceia. Porém, comemorara pela eterna possessão, o que o divino jamais possuirá, mais um mortal doente pela vida. Foste algo breve...


Nota: A estória não tem ligação nenhuma com a autora.
@thhs_

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