quinta-feira, 26 de maio de 2011

A ponte



Eu era rígido e frio, eu era uma ponte; estendido sobre um precipício eu estava. Aquém estavam as pontas dos pés, além, as mãos, encravadas; no lodo quebradiço mordi, firmando-me. As pontas da minha casaca ondeavam aos meus lados. No fundo rumorejava o gelado arroio das trutas. Nenhum turista se extraviava até estas alturas intrasitáveis, a ponte não figurava ainda nos mapas. Assim jazia eu e esperava; devia esperar. Nenhuma ponte que tenha sido construída alguma vez, pode deixar de ser ponte sem destruir-me.

Foi certa vez, para o entardecer – se foi o primeiro, se foi o milésimo, não o sei – meus pensamentos andavam sempre confusos, giravam, sempre em círculo. Para o entardecer, no verão, obscuramente murmurava o arroio, quando ouvi o passo de um homem. A mim, a mim. Estira-te, ponte, coloca-te em posição, viga órfã de balaústre, sustém aquele que te foi confiado. Nivela imperceptivelmente a incerteza de seu passo, mas se cambaleia, dá-te a conhecer e, como um deus da montanha, atira-o à terra firme.

Veio, golpeou-me com a ponta férrea de seu bastão, depois ergueu com ela as pontas de minha casaca e arrumou-as sobre mim. Com a ponta andou entre meu cabelo emaranhado e a deixou longo tempo ali dentro, olhando provavelmente com olhos selvagens ao seu redor. Mas então – quando eu sonhava atrás dele sobre montanhas e vales – saltou, caindo com ambos os pés na metade de meu corpo. Estremeci-me em meio da dor selvagem, ignorante de tudo o mais. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um assaltante de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E voltei-me para vê-lo. A ponta de volta! Não me voltara ainda, e já me precipitava, precipitava-me e já estava dilacerado e varado nos pontiagudos calhaus que sempre me tinham olhado tão aprazilvelmente da água veloz.

Kafka.

Talvez fora a precisão contida em verbos, ou mais uma de minhas semelhanças com a (ex)solidão, habitante de uma mente. Ou algo imóvel que vê alguém, porém não sabe aquém ou o que. Apenas é, e passa pelos cabelos como vento, eternamente mutável e passageiro. Devaneio.

sábado, 21 de maio de 2011

Violet


Presumo que tuas mãos estejam cansadas de segurar o peso da ausência, pois as minhas cansaram-se de apontar pro distante e exaltarem o que não vejo. Você está oculto a mim, e eu não tenho medo de tocar-te ao mesmo... Acariciando ricos ponte-agudos e aguçados, cortar-me as pontas dos dedos. Porque sangrar é sentir, deixar espalhar-se dentro e fora de si, e queimar a coragem em recompensa.

Tragédia é minha arte, e se me partir em riscos... É um banal erro diante da humanidade de falhas, mas há prazer em viver... Nesse momento o hedonismo se exalta em pele, não há nada mais prazeroso em viver com a magnitude de um terremoto que estremece o padrão de existir. É como ser uma ametista em meio à treva do real. E vejo esta mesma pedra em teus olhos, renascendo fragmentos que rompem com a minha utópica realidade, fazendo vertigem minhas quimeras ousadas.

Isso tudo faz com que entre em catarse quando deparo-me com a vida carregava em meus olhos ontem. Vejo a plenitude correndo em minhas veias, porém antes era como rena tatuada nas paredes de insignificância de alguém, eu ao menos senti durar. Agora esta se faz ametista ao céu violeta de um mundo que sorri. Sucumba ao renascer em almas que brilham toda vez que olhas para o Sol.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Lacrimosa II


O termo realidade é relativo demais para ser concreto. Não faz sentido, é irônico, mas é o que torna a ser a partir do momento em que o mundo tende esvaziar-se de quaisquer sentimento fugaz. Como o sangue que corre entre suas veias, estivesse vazado por teus olhos ardendo-te a pele.

Lágrimas de sangue, de chuva e de perdão. Apenas são e secam por si só. E também são prova de que existe um mundo interno que se liberta por dor. Por fim, a vida triunfa sobre ele, para que sua existência (ou anomalia de existir) seja sanada.

O vazio me provoca a dizer o que antes era desabafo e descargo da dor - para que cartas antes destinadas a um estranho – hoje são apenas brasa, poeira de uma estrela morta.... Por fim, em mim apenas as cicatrizes das correntes do sacrifício estão por baixo da pele.

Anjos caem ao som de uma sinfonia qualquer, medos desaparecem juntamente com almas do passado... Não há mais mentiras para manter o controle. Mudança surge das cinzas

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Metaforicamente



O mundo caiu em minhas mãos, e em certos momentos não sei o que fazer dele, poderia arremessá-lo ao vento que uiva em direção ao fim. Porque eu acredito que já o vi, pelo simples fato de nada começar por si. Acabei decidindo por princípios próprios... O “let it be” da vida é intenso, mas a distimia é tão gélida quanto estar em meio a multidão que grita verdades que você não quer ouvir, o que fez com que me levantasse e reagisse contra a ausência.


Domingo 06:56 a.m

Acordar com a sensação de que todo o teu ontem é hoje. A tua vida possui aquela simplicidade já decifrada, dúvidas em seu devido lugar... Ressaca física de estar embriagada de sobriedade. Lucidez.

Não, não há nada em seu devido lugar. Muito pelo contrário.

Então seu consciente desperta. Não há ! Até mesmo teus cabelos mudaram, o som da tua voz te assusta... As paredes perderam a cor, e o Sol nem ao menos está lá... E é aí que percebo novamente, vi o fim, vi a morte de um eu que hoje mal reconheço ou tenho medo de reconhecer.


Talvez seja filosófico, metafísico, aristotélico, platônico, utópico, rebuscado, complexo demais... Mas ainda existe essência. E tua alma sempre te guiará a ela. O teu ontem, irá lembrar o teu princípio que hoje foi colocado em prática, mas não com tanto fervor idealizado... O teu amanhã não será como ontem e nem hoje, mas há o que carregar em teus bolsos, o simples fato do vivido, do sofrido, do valorizado que tua essência conhece como um pastor a suas ovelhas.

É, ando vivendo por metáforas que só fazem sentido lidas pelo meu eu-rílico. E quando vivo desta forma, o tempo não é o mesmo... Até mais devagar que o próprio pulsar do peito.

Ps: Mudanças de interlocutor proposital. @thhs_ :)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Topo quimérico


Estou transbordando. Deixando escapar o que na verdade queria conter, ou que ao menos nem estivesse aqui. Fazia tanto tempo que lágrimas não queimavam-me a pele, e mais tempo ainda que clichês não ocupavam o papel. Chegou a tal ponto que, empilhei todos os sentimentos que quebraram-se e espalharam-se pelo chão... Escalei até o topo, e me atirei de volta sobre todos eles. Pude sentir cada um deles outra vez, com a intensidade de um jovem fugaz que precisava conhecer o mundo a velocidade da poeira ao vento.

Começo a rever o ontem a partir do que escrevo... Velhas expressões e palavras nulas para o ontem recente e o hoje que se reflete.

Mas não está tudo bem canalizado. O tom dramático é uma tentativa de suprimento, quando na verdade nada pode ser feito. É um labirinto e ao mesmo tempo um dominó que cai em seu efeito enquanto me rege, com suas flechadas de ideologias dogmáticas que tentam penetrar-me a mente. Minha alma é me escudo que não devolve nada além de uma mera anomalia antagônica ao mundo.

Pode ser que seja uma miragem do deste retrato de horror exposto aqui, mas todas as carências se exaltam, está no sangue que fora jorrado pelo cadáver do monstroso: passado.

Metáforas sem sentido, um verdadeiro horrorshow de fragmentos que desencadeiam dentro da realidade. O “real” que não se desprende da escuridão, dos fantasmas que foram heróis e hoje são meros inimigos... O que não é puro e nem sóbrio para ser provado.