sexta-feira, 25 de junho de 2010

Celebrate your Shortage.


Nascia o Sol, não haviam nuvens no céu. Era o primeiro dia de primavera, crianças saiam para brincar, a vizinhança estava toda para fora como se comemorassem o fim do inverno nórdico e a espera das íris que brotariam em seus jardins. Mas ao fim da rua, havia uma casa, com altos portões, grama aparada e um belo canteiro de rosas coberto por espinhos. A casa 67.

Lá morava uma “família” de ingleses recém chegada de Manchester, havia um homem com grande poder aquisitivo... Morava junto de sua filha que tinha um pouco menos de 17. Margott, era silenciosa e extremamente misteriosa. Pele clara e olhos claros, cabelos negros e seu olhar dizia muito – ou não. Raramente sorria, tinha anéis em todos dedos e consigo sempre carregava um livro e um cordão de prata.

Dos novos vizinhos pouco se sabia, mas notava-se que o homem era disciplinado e discreto, um tanto rude e severo com sua filha que pouco sabia, e talvez nem conhecesse o verdadeiro “sentido” de liberdade (se é que liberdade tem um sentido exato).

Enquanto todos se divertiam e comemoravam o fim do inverno e da brusca nevasca da semana que passara, Marggot se sentia achaque. O clima começava a aquentar, sua mente funcionava como um turbilhão, e sua dor desatinava mais que o habitual. Dor! Seu maior sentimento, seu maior segredo, seu maior motivo para ser. O som da gargalhada alegre das crianças penetravam em sua mente, ela queria fugir.

O tempo é seu inimigo fazendo-a exaltar toda a sua carência, criando grilhões e se amarrando a mesma. Ao seu lado estava seu violino, sua paixão, suas lembranças... Lembrara de seu 12º aniversário, foi quando ganhou seu tão sonhado violino. Enquanto passava as férias em Amsterdã, na casa de sua avó. Violino que pertenceu a sua mãe no ápice de sua juventude. Nunca se sentira tão orgulhosa e era como se a presença de sua imortal estivesse lá.

Mas agora? Quem ela tinha? Ninguém! Que pudesse segurar sua mão, para massagear seus cabelos e dizer que tudo iria passar em algum momento. Os sonhos permaneciam inertes, as memórias eternas e a vontade de desistir tomava conta, sua fraqueza. As horas passavam, e suas lágrimas escorriam na imensidão da dor.

Ao entardecer, decidiu que precisava de um pouco de ar... Por mais que não se agradasse daquele clima dirigiu-se até a porta, sentou-se a beira de seu portão... A crianças já haviam se recolhido, passava das 7 da noite, sentia-se sozinha consigo. O bairro era silencioso, passavam-se poucos carros.

Meu espírito está á negar minha mente? Jamais havia sentido assim. A solidão me faz mais forte? O que é a liberdade? Já não tenho um pingo de realidade... Me tornei gélida!” Estas eram as dúvidas que passavam por seus pensamentos. Olhou a Lua, sentiu o vento, então entrou para casa... Deitou-se na sala para esperar seu pai, na esperança de que ele viesse para casa esta noite.

Sentia-se vilipendiada, sua tentativa de encontrar o pai falhou. Pela primeira vez decidira falar, ou pelos menos tentar dizer... Que sentia falta de casa, que suas notas baixaram e sentia-se mais incompreendida que o comum. E a grande decisão de procurar ajuda, estava cansada de se entorpecer... Mas ele não estava lá, estava exaltando sua felicidade, com seus novos amigos, com sua nova namorada. E Margott era fruto de seu passado, de uma relação trágica provocada pela morte de quem mais amara, mas que mais fez sofrer durante seu leito de morte.

Margott sentia o vitríolo, queria estar longe dali... Amanhecia o dia, se trocou e mesmo que o clima proporcionasse uma escolha de roupas mais leves, decidiu cobrir suas marcas de fraqueza. Tomou o chá frio que preparara e saiu até a biblioteca da cidade...

Schopenhauer talvez fosse um de seus antidepressivos. Ele afirmava que a vida não foi feita para ser aproveitada, mas despachada e que encontraremos conforto na velhice, ao olhar pra trás... E assim Margott vivia, despachava a falta e o amor que sentia para não demonstrar fraquezas abstratas. Um paradoxo não? É, pois suas marcas estavam estampadas em seu corpo.





Nota: Narrativas não é o que eu habitualmente escrevo, geralmente escrevo em primeira pessoa, mas tentar não custa... Se achar um final, postarei aqui. @thhs_

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